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Analise da Proposta Curricular do Estado de São Paulo

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ANALISE CRITÍCA DA PROPOSTA CURRICULAR DO ESTADO DE SÃO PAULO

Por: Rafael Tadeu Moravagine Carneiro


“Acabar com a escola não significa  destruir a escola, mas sim acabar com o currículo que impõe uma carga de informação ociosa, em detrimento da criação de um ambiente de reflexão” (Fernando Carvalho citando Maurício Tragtenberg)

Os Incompreendidos, de François Truffaut

Ao nos depararmos com o advento da Educação estamos imediatamente em um campo complexo, onde muita das vezes as particularidades da mesma são deixadas de lado no sentido de não percebemos o quanto se faz necessário percebemos o ensino como algo multifacetado, ou seja, “é preciso substituir um pensamento que isola e separa por um pensamento que distingue e une” como nos coloca Edgar Morin.

Neste sentido quando nos vemos diante da Proposta Curricular do Estado de São Paulo temos a oportunidade de trazermos a tona essa discussão que nos remete aos mais variados âmbitos de analise tanto no sentido objetivo quanto subjetivo.

Porém antes mesmo de adentrarmos no cerne da Proposta Curricular e conseqüentemente as brechas que a mesma nos fornece se faz necessário mesmo que de forma superficial visualizarmos alguns fatores que constituem o Currículo e suas perspectivas.

O currículo é antes de qualquer coisa uma espécie de organizador de práticas educacionais que por sua vez acaba por se moldar e se constituir como significado educativo através de reflexões que o mesmo faz em relação a esquemas como formativo, socializador, cultural, etc, ou seja, o currículo não pode ser visto como conceito e sim como algo que se configura e se constrói através dos mais variados elementos políticos e educacionais.

Neste sentido percebemos o currículo no sentido teórico como referencial na tentativa de se melhorar a qualidade do ensino, no aperfeiçoamento dos professores e das instituições escolares aonde saberes e metodologias diferentes acabam por fazer necessário uma nova forma de se comunicar para com os alunos. Porém é importante deixar claro que o Currículo Escolar não pode ser visto como “Um cadáver adiado que procria” como diz o verso do poeta português Fernando Pessoa. Pelo contrario, deve ser analisado como algo que pode ser construído culturalmente através de práticas educacionais objetivas e subjetivas que podem e devem ser multifacetadas no sentido de que quando partimos do pressuposto que o Currículo não pode ser visto como conceito e sim como construção cultural é no sentido de que a cultura não pode ser vista como algo puro e isolado e sim como vasos comunicantes dentro da perspectiva de Edward Said para com a representatividade do conceito de cultura.

“O melhor jeito de organizar o currículo escolar é por projetos pedagógicos” (Fernando Hernández)

Outro fator importante dentro desta problemática que merece ser analisado se da na perspectiva de que o currículo possa ser uma espécie de ponte entre a teoria e a pratica aonde os conteúdos devem dialogar para com elementos teóricos como didáticos, psicológicas, etc. O que estamos querendo dizer neste sentido é que o fato da existência de um currículo escolar institucionalizado não significa diretamente que o docente não possa caminhar entre ele e perceber lacunas que possam ser usados de forma que construa melhores resultados pedagógicos tanto para ele enquanto professor quanto para o aluno, ou seja, a sensibilidade do professor deve estar presente nas decisões que tomar tanto no sentido teórico da formulação da construção de seu plano de ensino quanto em sua aplicação.

Mesmo estando dentro de um campo institucionalizado partindo de uma proposta curricular criada por uma política institucionalizada que representa os interesses políticos e sócias de alguns segmentos da sociedade o docente tem que ter em mente o planejamento pode ser criado não para englobar um esquema universal, pelo contrario a construção do mesmo deve partir do principio da realidade e das circunstâncias em que se encontram.

Enfim, o currículo não pode ser visto como planejamento universal que atinge da mesma forma os mais variados âmbitos educativos existente na complexa configuração social existente no cotidiano escolar, seja do ponto de vista do aluno, seja do ponto de vista da realidade e do cotidiano que o mesmo se encontra. Neste sentido o Currículo não pode simplesmente ser adotado, o mesmo deve também ser experimentado, avaliado, criticado, adaptado, a partir das brechas que o mesmo contenha dentro de suas inúmeras expressões sociais, políticas, econômicas, culturais e subjetivas.

Enfim todo sistema de educação seja no sentido avaliativo ou de uma construção de ferramentas avaliativas que por sua vez contam com inúmeras ferramentas teóricas e praticas devem dialogar para com cada método usado no respectivo contexto social não só na estrutura de ensino como também subjetivo do aluno.

“Um plano curricular precisa satisfazer, de forma articulada, todos os níveis de funcionamento de uma escola” (César Coll)

PROPOSTA CURRILUCAR DO ESTADO DE SÃO PAULO

Quando nos vemos diante da Proposta Curricular do Estado de São Paulo percebemos que estamos diante de algo complexa que por sua vez carrega inúmeras particularidades que acabam por fazer da mesma algo multifacetado no sentido de sua composição e de suas respectivas representatividades. Como já havíamos colocando acima o processo de formulação de um currículo e conseqüentemente de uma proposta curricular adentra em questões que vão além do plano pedagógico no sentido que a mesma muita das vezes acaba por ser compreendida e formulada por único olhar que por sua vez alimenta um determinado ponto de vista político em relação à educação.

Neste sentido que se faz de extrema importância percebemos a Proposta Curricular do Estado de São Paulo como conseqüência de um plano educacional que tem como meta atingir resultados esperados pelos responsáveis pela sua formulação e também por aqueles que se fazem presentes no âmbito material no processo de implantação do mesmo.

Com o intuito de contribuir para a qualidade das aprendizagens e o desenvolvimento Currículo a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo tomou duas iniciativas na tentativa de materializar suas intenções em relação à educação e sua representatividade política e social.

As iniciativas foram:

Amplo levantamento do acervo documental e técnico pedagógico existente.

Processo de consulta a escolas e professores para divulgar boas práticas existentes nas escolas.

Essas iniciativas se fizeram na perspectiva de que o currículo teoricamente teria sido constituído a partir de um dialogo para com os respectivos docentes da rede de ensino e da qualidade material pedagógico existente até então. Porém não podemos deixar de frisar que  a consulta feita às escolas e aos professores se deu no sentido daqueles que já “caminhavam” dentro de um “ideal” de educação compartilhado pelos formuladores do currículo, neste sentido temos que ficar atentos às brechas existentes no mesmo e por que não nas armadilhas que possam existem no cerne da Proposta.

Outros fatores existentes dentro da composição do Currículo formulado pela Secretaria de Educação é a idéia de que a “Leitura e a Escrita” são peças chave na composição das competências indispensáveis para enfrentar os desafios sociais, culturais e profissionais do mundo contemporâneo; o individuo participativo dentro do seu próprio grupo social; proposta de autonomia da vida adulta e profissional são elementos presentes dentro da Proposta, porém temos que ter cuidado para não sermos iludidos no sentido de deixarmos passar despercebidas possíveis brechas existentes na configuração da mesma. Ou seja, às vezes mesmo trabalhando com possíveis renovações dentro do âmbito da educação e respectivas praticas pedagógicas as idéias que configuram essa formulação podem pertencer a um “ideal velho”, porém com roupagem nova.

“A linguagem é mais moderna, mas ainda exprime a tradição”[1]

Outros elementos existentes dentro da Proposta são: A idéia de que a Educação deve ter como pressuposto o serviço de desenvolvimento, construção de identidade de autonomia e de liberdade; acesso a amplo conhecimento e saberes produzidos pela humanidade; contextualização do mundo de trabalho.

Neste ponto adentramos em um ponto delicado, que é o da representatividade do trabalho e de suas implicações no âmbito da construção da Proposta Curricular do Estado de São Paulo. Pois se não tomarmos cuidado podemos cair na armadilha de compartilharmos sem percebemos da idéia de que a liberdade, o desenvolvimento e a autonomia do docente se de através do trabalho, fazendo assim da educação como ponte ao mundo do trabalho e não lugar de reflexão e de construção de uma analise critica da sociedade. Sendo assim se faz necessário percebermos através do mosaico de possibilidades existentes dentro da Proposta a melhor forma de fugir desse ideal.

O nosso intento dentro desta analise é adentrar nas brechas existentes dentro da Proposta Curricular do Estado de São Paulo, pois mesmo nos apresentando elementos que em um primeiro momento nos parece de extrema importância capacidade na renovação das praticas educacionais tanto no âmbito teórico quanto pratico, existem fatores que na maioria das vezes não são o que parecem, por isso que achamos necessário sempre voltarmos a esse ponto. Outras idéias presentes na proposta como:

  • Ninguém conhece tudo e de que o conhecimento coletivo é maior que a soma dos conhecimentos.
  • Currículo como referência para ampliar, localizar e contextualizar os conhecimentos.
  • Articulação do currículo com o conhecimento do aluno.
  • Domínios não apenas da língua mas de todos as outras linguagens  e principalmente  ao repertório cultural  de cada individuo e de seu grupo social.

As articulações entre esses elementos, o conteúdo e os conjuntos básicos  de competências defendidos por lei  devem caminhar de forma que possa construir um dialogo para com a realidade do aluno e da estrutura social que o mesmo se encontra e sua unidade de ensino. Possibilitando assim o surgimento de ações pensativas pelos alunos e a valorização do professor enquanto profissional e enquanto individuo.

CONCLUSÃO

Quando caminhamos em direção não só a Proposta Curricular do Estado de São Paulo de forma geral, mas também da disciplina de História, percebemos o quanto à mesma é complexa no sentido de que a formulação da mesma se deu através de fatores não só educacionais e pedagógicos, mas também políticos. Sendo assim temos que ter em mente que está intrínseco na mesma, posicionamentos, escolhas e idéias de determinados grupos que fazem de suas praticas administrativas e políticas tentativas de materializarem o que acham necessário para o desenvolvimento da sociedade.

Se em um primeiro momento a Proposta nos parece algo interessante  e bem formulado no sentido de possibilitar a escola e conseqüentemente ao aluno a reflexão em detrimento a simples acumulação de informação, nas brechas existentes na mesma percebemos que o Currículo é antes de tudo um posicionamento político.

Logo, a disciplina de história por sua vez carrega com sigo uma importância que vital no sentido de se criticar se necessário à constituição da formulação e da implantação desde ou daquele currículo.

Porém para que se faça possível esta analise critica não só da proposta, mas também da sociedade em si através da disciplina de historia na sala de aula se faz necessário que a mesma funcione como instrumento  capaz de levar o aluno a perceber-se como parte de um amplo meio social, alimentado por elementos sociais, cultuarias, políticos, econômicos e subjetivos.

“Ante os fatos nem rir nem chorar, mas compreender”

(Espinosa)

Dentre os fatores positivos da Proposta no âmbito da disciplina de História, podemos dar visibilidade a alguns em detrimentos a outros, que são:

  • Superar antigas formas de se fazer história (Mitos dos Heróis)
  • Considerar como de fundamental importância o conjunto presente na formação do aluno e com isso construir um diálogo para com ele, sua realidade, a História e suas representatividades.
  • Debate e Participação

Pontos negativos:

  • A parcialidade como problema para o professor
  • Contestar o presente no âmbito do contexto histórico e sua construção através dos tempos
  • Idéia de aprender História

Goethe dizia que muita luz é sinal de cegueira, é neste sentido que a Proposta Curricular do Estado de São Paulo para a Disciplina de História parece caminhar na maioria das vezes, pois ela percebe a história como aprendizagem no sentido de que a contestação do presente é inexistente dentro da formulação da mesma, ou seja, mesmo tendo uma enorme divulgação, amplo distribuição de materiais pedagógicos a Proposta ainda carrega elementos que castram a reflexão do aluno em sala de aula se o professor não ficar a tento as entrelinhas da mesma.


[1] Apollinaire em relação a alguns movimentos artísticos existentes no inicio do século XX, que mesmo usando novas técnicas e novos matérias ainda exprimem ideais antigos da arte clássica.

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Written by moravagine

julho 20, 2010 às 3:14 pm

Publicado em Arte e Política

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