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O tempo e suas representatividades

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O TEMPO E SUAS REPRESENTATIVIDADES


ENSAIO POR RAFAEL CARNEIRO


Ao nos depararmos com o advento do tempo adentramos imediatamente em uma questão complexa, pois envolve elementos muitas das vezes deixados de lado ou até mesmo ignorados por parte do ocidente em especial, pois como sabemos o pensamento ocidental acaba por ter em seu cerne um posicionamento cartesiano em relação ao tempo diferente do continente africano, por exemplo, que percebe o tempo a partir de outra temática.

Ou seja, dentro do âmbito da cultura africana presente em países como Moçambique e Angola percebemos que os mesmos diferentemente do ocidente vivenciam um ambiente oral, ou seja, pela escrita ser algo recente no mesmo, toda expressão subjetiva e objetiva no continente africano se deu através da oralidade e do corpo. Sendo assim construindo todo um complexo emaranhado de possibilidades de entender e expressão da realidade através da fala, cantos, contos, danças e rituais.

O interessante é que sendo uma cultura baseada na oralidade o corpo acaba por ser uma espécie de templo no sentido de que o mesmo carrega em si toda uma representatividade para com a vida e para com a morte, ao contrario do ocidente cartesiano que percebe o corpo apenas como deslocador e nada mais.

Ainda caminhando nesta mesma problemática no âmbito da cultura africana adentramos na importância da cultura e na representatividade da mesma para com a comunidade em questão, onde a mesma por ser construída a partir de uma construção de identidade e manutenção de tradições através da oralidade se torna de vital importância a existências de figuras como  das crianças que seriam responsáveis pela perpetuação das tradições e das pessoas mais idosas representadas por espécies de líderes espirituais destas comunidades.

Neste sentido quando nos vemos diante do texto de Laymert (Tempo e História), percebemos o quanto a problemática do mesmo caminha no mesmo sentido de nossa pequena introdução, ou seja, o advento do tempo e da história e suas respectivas representatividades no âmbito das mais variadas interpretações caminham para um campo complexo de analise onde infelizmente muita das vezes o pensamento cartesiano se az mais presente em relação a outras possibilidades de se perceber o tempo e a história.

Como sabemos na História como ciência não existe verdade e sim interpretações, porém a concepção de tempo e de espaço presente no âmbito da mesma muita das vezes faz se perder, ou melhor, muita das vezes se deixa de dar visibilidade para outras possibilidades de compreensão do tempo e do espaço, é claro que dentro da historiografia existem trabalhos acadêmicos que adentram na questão do tempo histórico e do tempo mítico, porém ficam restritos ao âmbito acadêmico.

Edgar Morin em O enigma do homem ao relatar o avanço da savana sobre a floresta nos mostra o quanto à questão do espaço se faz presente, no sentido que no contexto levantado por Morin o espaço seria representado pela totalidade da realidade, hoje dentro do posicionamento da realidade contemporânea o espaço é vista sobre os mais variados ângulos seja virtual, espacial, subjetivo, etc, porém como diria Goethe muita luz é sinal de cegueira, pois mesmo abrindo as possibilidades de se perceber a realidade o ser humano acaba por fechar cada vez mais sua visão no âmbito subjetivo e antropológico, ou seja, a concepção de tempo cartesiana acaba por se enraizar dentro do cotidiano moderno.

Quando Garcia dos Santos relata a dificuldade do pajé Davi em se fazer ouvido pela cultural ocidental representada por uma sociedade cartesiana é neste sentido, o tempo do pajé é diferente do tempo cartesiano da sociedade ocidental, neste sentido o estranhamento entre as concepções de realidade divergentes acaba por anular uma delas, que historicamente são os indígenas e outras minorias.

A discussão levantada por Laymert é de extrema importância para que possamos compreender e construir uma existência mais tolerante e harmoniosa para com o outro, pois de forma esteta e ao mesmo tempo complexa o autor consegue adentrar em concepções que muita das vezes deixada de lado por serem mais cômodas a nós, sendo assim, retornando ao avento da importância da oralidade para o africano e a concepção de tempo e espaço do mesmo ser baseado na representatividade de suas tradições passadas e reafirmadas através da oralidade e do corpo como um templo, da mesma maneira se constrói a identidade da tribo de Davi.

O que queremos dizer é que também para Davi a oralidade se faz de extrema importância, e a criança e o velho são os responsáveis pelo elo entre passado, presente e futuro, e os mitos e ritos fazem parte de uma construção de tradições e percepções do tempo e do espaço que foge das regras ocidentais, logo, as falas para os mesmo caminham no âmbito do sagrado. Mesmo a realidade sendo a mesma para ambos, existe interpretações diferentes.

Em fim o tempo mítico do xamã como tempo da natureza caminha no mesmo sentido do proposto por Morin, o espaço presente se faz representado não só pela natureza e pelos vivos, mas também pelos mortos, ou seja, a concepção de espaço e de tempo para o mítico diverge para com o tempo histórico, pois ao contrario do histórico o tempo mítico está sempre renascendo, sempre começando é o tempo sobrenatural, já o histórico é o tempo material, objetivo construído através dos tempos.

Talvez uma das grandes contribuições de Laymert seja no sentido de criar a possibilidade do dialogo entre a realidade em que nos encontramos para com a dos xamãs e poetas, ou seja, devemos olhar a realidade com outros olhos, sem cabresto, perceber que a cultura são vasos comunicantes como coloca brilhantemente Edward Said em Orientalismo: O oriente como invenção do ocidente. Devemos ter a coragem de nos vermos no outro e de não só tentar compreender o outro, tempos que ter a consciência que a realidade que percebemos é uma construção complexa que varia de cultura para cultura e conseqüentemente de individuo para individuo, muitas das vezes o que pensamos e o que vemos é na verdade a mesma coisa.

Mas isso deixamos para a física quântica.

BIBLIOGRAFIA

LAYMERT, Garcia dos Santos. O tempo Mítico Hoje – IN- Tempo e História, São Paulo, Ed. Companhia das Letras.

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Written by moravagine

fevereiro 15, 2010 às 5:07 am

Publicado em Outras portas

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3 Respostas

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  1. Juan ou Rafael? Bem… estou de queixo caído. Espaço de muita qualidade. Por descobri-lo no universo virtual, meu alimento diário ficara apetitoso.

    Abraços!

    Priscila Cáliga

    Priscila cáliga

    abril 10, 2010 at 11:15 pm

  2. Vim conferir o teu blog. Adorei ler a descrição do perfil – “trago em mim todos os sonhos do mundo”. O blog é de ótima qualidade. Parabéns pelos textos.

    Ela

    maio 16, 2010 at 6:14 pm

  3. Ótimo post. Interessante como a maioria de nós nos vemos como superiores a certos povos, como os da África. Mas acredito que apesar de todas as dificuldades que eles vivem, esses povos tem uma percepção de vida muito melhor que a nossa. Vivemos aqui num estado de medo, paranóia e imediatismo ridículo.

    Gian Le Fou

    maio 22, 2010 at 9:53 pm


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