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A independência do Haiti

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Identidade como forma de Resistência

Ao nos depararmos com a revolta dos escravos africanos em São Domingos, estamos adentrando em um campo complexo, pois envolve não só a questão social e econômica no quais os africanos se encontravam na condição de escravo, mas também a questão da identidade do mesmo, a consciência de que não era aquilo que eles queriam para eles, logo de alguma forma procuravam uma forma de se libertar desta condição, a vida tribal que os mesmo tinham em suas respectivas tribos, suas tradições e costumes não iam sumir de uma hora para, mesmo estando em terras distantes.

A grande maioria dos africanos trazidos para a Ilha de São Domingos era da Costa da Guiné, onde se encontrava toda uma organização social, cultural e política por parte dos nativos. Logo se refletindo em uma identidade coletiva e individual em relação aos mesmos hábitos e costumes. É claro que havia mais de uma tribo, que consequentemente proporcionava uma grande diversidade tribal, mas em sua grande maioria todas elas tinham como pólo centralizador o Vodu, como religião, logo sem se perceber, havia uma identidade religiosa coletiva.

“Os escravagistas agiam predatoriamente nas Costa Guiné e, assim devastavam uma área, dirigiam-se para o Oeste e então para o Sul, década após década. Passaram pelo Nigér, desceram à Costa do Congo, atravessaram o Congo e Angola e deram à volta no Cabo da Boa Esperança, até chegarem, por volta de 1789, ao distante Moçambique, no lado oriental da África. A Guiné era seu principal território de caça”. (p.21) [1] .

Estes escravagistas viam os africanos como “peças” a serem levadas a alimentar o trafico de escravos e consequentemente a mão de obra escrava nas colônias. Mas isto não quer dizer que eles não tinham consciência da cultura e das tradições dos mesmos, eles podiam não aceitar ou até mesmo negar, mas tinham consciência, prova disto se dá em relação há arvore do esquecimento, onde antes de embarca no navio, o nativo tinha que dar nove volta nesta arvore, para não se lembrar de seu passado, ou seja, o traficante de escravos via o outro como mercadoria, mas este mesmo “outro”, tinha que deixar para trás todo o seu histórico de vida para trás.

Logo se percebe que não podemos olhar para a questão cultural como algo secundário dentro do processo escravista, pois se fizermos isto, estaremos alimentando somente o ponto de vista do conquistador, do dominador e neste caso especifico do europeu, não podemos esquecer que o africano carrega dentro de si um mundo particular, mundo este que é alimentado por sua identidade, por sua relação para com sua terra, logo é de extrema importância nos voltar para a questão cultural como forma de resistência, pois estas pessoas não são só números, não podemos simplifica-las a uma conseqüência do trafico de escravos para as colônias com o intuito de alimentar a produção de açúcar e consequentemente a mais-valia, estas pessoas são muito mais que isso, são sujeitos, que por sua vez tiveram toda a sua estrutura tribal destruída pelos escravistas. Logo o que se cria dentro da cabeça destas pessoas diante desta situação é algo imprescindível se quisermos realmente entender a revolta de São Domingos, pois a mesma começou no momento em que tiraram eles de sua terra.

“A vida tribal foi destruída e milhões de africanos sem tribos foram jogados uns contra os outros”. (p.21) [2].

De uma hora para outra, estes africanos se vêm obrigados a embarcarem em um navio, e ir para um lugar que eles não fazem à mínima idéia onde seja, a única certeza que tem é que os tiraram de suas terra e de suas famílias.

Dentro do navio presos dentro de um porão ao lado de outras pessoas, todos assustados sem saber o que está acontecendo, passam dias neste porão durante a viagem, onde em um espaço mínimo se concentra um grande numero de pessoas, em muita das vezes machucadas, com feridas, doenças físicas e emocionais.

É simplesmente impossível achar que estas pessoas não iriam procurar alguma forma de resistir, poderia ser até mesmo dentro do navio:

“Alguns aproveitavam a oportunidade para pular ao mar gritando em triunfo, enquanto se afastavam do navio e desapareciam sob a superfície” (p, 23) [3].

Podemos ver neste ato dentro de navio, que a resistência por parte dos africanos começou já a bordo, onde ao se jogar ao mar estas pessoas alimentam sua identidade através da perca aquilo que tem mais valor, que é a sua vida. E por isso não podemos olhar para este ato, como uma simples atitude de desespero se fizermos isto, estaremos mais uma vez negando as varias formas de resistência que o individuo pode usar para mostrar o seu descontentamento com alguma situação que não o agrada, neste sentido a afirmação de Foucault, em relação ao suicídio se enquadra perfeitamente ao exemplo destes africanos, (O maior ato de liberdade que o ser humano pode ter é o suicídio).

É importante frisar que quando alimentamos o posicionamento de que a cultura como forma de resistência é a chave para compreendermos estes levantes, não estamos de forma alguma negando o fator sócio-econômico, simplesmente não vemos o mesmo como único agente da realidade de uma sociedade, pois não podemos ver a historia como algo pronto e acabado, onde as particularidades do individuo são deixadas de lado.

Em Jacobinos Negros, C.L.R. James, vê as revoltas feitas pelos escravos de origem africana como, como sendo fruto dos ideais da Revolução Francesa, onde estes mesmo ideais alimentaram os respectivos levantes, como isso James tenta mostrar que o escravo africano não é inferior ao europeu, pois também tem uma consciência de classe, é neste ponto que James vê o escravo como uma classe de trabalhadores que se organizaram na luta contra o opressor, mas em nenhum momento James levanta à possibilidade destes levantes e consequentemente a revolução serem decorrentes de um processo não linear que teve como cerne uma identidade construída pelos africanos.

Ou seja, James vê o econômico como agente principal dos levantes e não a questão da identidade, seu posicionamento fica mais claro em relação a esta afirmação quando faz uma comparação da realidade de São Domingo, com a revolução bolchevique, onde as massas organizadas e exploradas economicamente se rebelaram contra o opressor.

Daí que se dá a lacuna dentro do trabalho de James, pois ao nos depararmos à questão da identidade estamos adentrando nas diversas formas de se construir uma nova cultura a partir de um contexto totalmente diferente daquele de sua origem, mas isto não quer dizer sincretismo cultural ou religioso.

Pelo contrario a pluralidade de possibilidades de se alimentar e consequentemente construírem uma nova cultuar se dá pelo advento da necessidade de afirmação em solo estranho, e para isso é necessário usar da realidade e do contexto em que estão inseridos.

No caso especifico de São Domingos, e dos africanos de Guiné, estamos diante de um exemplo pratico do que me refiro, pois os mesmos em suas respectivas tribos nativas tinham uma cultura, alimentada pela suas respectivas religiões e costumes, e não é por que agora estão em solo diferente, que vão deixar tudo para trás e absorver a cultura do “novo”, pois cultura e tradição são algo que você carrega não importa para onde vá.

Logo em solo latino, estes africanos acabam por se articular em torno de uma construção de uma nova identidade, mas tendo como cerne suas vidas e lembranças culturais de suas respectivas tribos, logo mesmo em solo “estranho” se cria a possibilidade de uma articulação própria e independente destes africanos, em relação à realidade que estão vivendo.

Por isso não podemos ver o levante como um fator simplesmente econômico. O que alimenta uma cultura e consequentemente uma identidade, mais que a questão da terra, é a língua e na maioria das vezes a questão religiosa.

Quando olhamos para o Vodu, estamos olhando para a identidade de um povo, que usa do criolle para expressar esta doutrina, e a comunicação entre os africanos.

Toda a estrutura deste ensaio caminha pela idéia da cultura como forma de resistência, e no caso especifico de São Domingo seria através do vodu e do criolle.

Pois foi através dos mesmo que estes africanos se organizaram e alimentaram um objetivo comum, que a preservação de suas respectivas identidades, mas para isso tiveram que criar uma nova articulação dentro de suas respectivas origens, usando do leque cultural que existe decorrente das diversas tribos que fazem parte, para se criar uma nova cultura, mas reafirmando que não se trata de sincretismo e sim de uma construção de uma nova forma de expressar suas respectivas tradições, logo fortalecendo suas identidades, mesmo em solo “estranho”.

A resistência em São Domingos pode ser vista em exemplos que James, nos dá, onde se percebe que as formas de resistência dos africanos, antes de ser algo coletivo era algo individual, mas que com toda certeza fazia parte das conversar que tinham entre si, a partir das oportunidades que os mesmos criavam para poder praticarem sua religião e seus costumes, logo vemos novamente a importância do cultural enquanto forma de resistência, pois foi a partir das reuniões religiosas que se possibilitou a revolução e não a organização política derivada de uma influencia externa como afirma James.

“Os escravos envenenariam, as crianças mais novas do senhor para assegurar que a herança da propriedade recaísse a apenas a um filho” (p, 30) [4] .

O objetivo desta ação dos escravos era a não separação de suas respectivas famílias já construídas em solo de São Domingo, pois se o latifundiário tivesse mais de um filho conseqüentemente em uma possível divisão de herança as famílias constituídas pelos escravos seriam repartidas, logo podemos ver mais uma vez que o escravo antes de mais nada é um sujeito, e se articula em prol de seu objetivo.

Ê! Ê! Bomba! Heu! Heu! Canga, bafio té! Canga, mauné de lé! Canga, do ki la! Canga, li!”

Atitudes como estas nos mostram que a resistência por parte dos africanos, se dá de varias maneiras, em um primeiro momento individual, principalmente através de praticas de envenenamento, pular ao mar, e em um segundo momento a pratica coletiva que seria os levantes propriamente ditos.

Enfim a identidade como forma resistência, esta presente não só no caso dos escravos da ilha de São Domingos, onde os batuques de origem africana anunciaram o inicio da revolução, mas também esta presente em outro momento, na Bahia em 1835 na revolta dos malês, onde trajes típicos muçulmanos e datas especificas de suas respectivas comemorações religiosas marcaram o inicio do levante.

Logo não podemos nos fechar dentro de uma idéia da historia, sem olhar para seus sujeitos e suas respectivas ações, é necessário dar voz aos excluídos da historia, para que se crie a possibilidade de se alimentar a identidade cultural como forma de resistência dentro do âmbito da historiografia.

Para se saber mais sobre o Haiti nos dias de hoje se faz interessante assistir a este trecho de  Bon Bagay Haiti –  Histórias de Cité Soleil

BIBLIOGRAFIA


[1] C.L.R, James. Os Jacobinos Negros. Loussaint L Ouverture e a Revolução de São Domingos. Ed., Boitempo, 2000.

[2] idem

[3] iden

[4] idem

[5] idem

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Written by moravagine

janeiro 15, 2010 às 10:24 am

Publicado em 1

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