Tribuna na alcova

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O olhar e suas representatividades

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Londres e Paris no século XIX:

O espetáculo da pobreza

Resenha

Rafael Carneiro

Ao nos depararmos com a história e suas diversas formas de analises, imediatamente estamos adentrando em um campo complexo, onde na maioria das vezes as particularidades que envolvem a mesma são deixadas de lado.

Neste sentido quando a questão da multidão é vista no âmbito da analise histórica, e a presença do individuo representado em seu respectivo cotidiano é colocado como algo constituído a partir de elementos culturais, sociais, subjetivos e historicamente definidos presentes na esfera do cotidiano no âmbito político, adentramos quase que imediatamente na representatividade que a multidão exerce na varias interpretações que se cria em torno da mesma.

Daí que se da à importância do trabalho de Maria Stella M. Bresciani, a autora de Londres e Paris no Século XIX: O Espetáculo da Pobreza é professora de História na Unicamp desde 1974, tendo participado da criação do Departamento e do Mestrado em História dessa Universidade. Graduada em História na FFLCH da USP onde obteve também o titulo de doutor, com uma tese sobre a formação do mercado de trabalho e a criação do Estado liberal republicano no Brasil.

Maria Stella, a partir de textos literários, investigadores sociais, médicos e administradores, percorre a questão da multidão no sentido de analise histórica, logo, nos possibilita ter acesso as varias imagens que os homens do século XIX, tem da sociedade, onde a questão da pobreza ganha uma maior visibilidade por está presente em todos os âmbito da sociedade, direta ou indiretamente.

O cerne de suas argumentações se dá em relação à representatividade da multidão para os literatos do século XIX, suas argumentações dão inicio tratando o fascínio e o terror presentes nas ruas de Paris, onde o reagir e não mais o agir toma proporções nunca vista antes.

Para isso usa em um primeiro momento do olhar estético de Charles Baudelaire para adentrar nas ruas e seus personagensNas ruas de Paris, milhares de pessoas andando em marcha rumo às necessidades presentes dentro de suas respectivas realidades, onde o grande centro serve de palco para esses deslocamentos, centro este que acaba por anular o individuo enquanto individuo, no sentido do mesmo ser visto apenas como uma massa que parece não perceber a realidade que o cerca, se tornando só mais um no meio da multidão.

Nesse sentido o cotidiano se transforma em um espetáculo para os olhares de quem vive nas grandes cidades, logo, o olhar de Baudelaire (aguçado pelo ópio e haxixe), caminha pelos grandes centros no sentido de captar o acaso presente, onde até o horror se torna agradável.

Onde a busca por algo desconhecido gera a expectativa e a certeza do achado, logo, o acaso dentro da problemática de Baudelaire tem a função de canalizar a representatividade do espetáculo presente no particular de cada momento, adquirido junto à multidão.

Nesse sentido, Paris se divide entre a noite a o dia, que por sua vez apresenta multidões diferentes, se por um lado durante o dia, as ruas da cidade é composta pela despertar dos trabalhadores rumo a suas jornadas de trabalho, por outro, a noite carrega dentro de si, toda a sua particularidade.

Ela é composta pelo desconhecido, pelo criminoso, pelas prostitutas, pelos jogadores e pelo sono dos trabalhadores, logo a representatividade que essas particularidades têm para com os letrados é multifacetada. Diferente de Baudelaire, a noite é vista para alguns como assustadora e perigosa. As argumentações de Janin caminham neste sentido, afirmando que a multidão da noite é uma verruga virulenta sobre a face da grande cidade que é Paris.

Maria Stella, ao tratar do olhar do homem em relação ao século XIX, caminha em direção ao desconhecido presente nas entrelinhas destes textos, logo, os olhares vão mudando.

A noite antes vista como encantadora agora é vista a partir de sensações, a imagem dessa sociedade noturna habitada por passos e sussurros, é vista em Victor Hugo como uma multidão sem nome. Para descrever essa massa sem nome, Victor Hugo usa de metáforas para expressar seu olhar em relação à multidão, onde as incertezas de se viver em meio à multidão são comparadas à incerteza de se estar diante de um oceano sem saber como serão seus movimentos, é a partir desses elementos que o espetáculo das ruas torna-se visível nos textos do século XIX.

Sendo assim, o conhecimento da cidade é vital para que os múltiplos sinais presentes na mesma sejam materializados na realidade do cotidiano, neste sentido Maria Stella, ao analisar o personagem literário de Charles Dickens, Oliver Twist, percebe a presença da materialização da experiência adquirida na cidade a partir de seus múltiplos sinais, nos meninos que acolhem Oliver, pois os mesmo diferenciam na multidão a partir dos sinais adquiridos, suas possíveis vitimas.

Ou seja, o olhar agora é dos personagens presentes no cotidiano das ruas, nesse sentido a questão do tempo e do trabalho ganha maior visibilidade, onde se cria a idéia do tempo útil, que é a atividade urbana no século XIX, que substituiu o chamado tempo da natureza.

Por outro lado o tempo útil, agora substituído pelo chamado tempo abstrato representado na forma do dia dividido em 24 horas, é a base das argumentações em torno do trabalho sendo responsável pela constituição da sociedade, onde o homem é introduzido ao tempo útil do patrão.

A rua por sua vez, carrega suas particularidades presentes em cada individuo, nesse sentido, Edgar A. Poe, adentra nas multidões como um observador casual, no sentido de olhar o individuo em seu mundo, que por sua vez carregava toda uma complexidade em sua existência.

Nesse sentido Poe, adentra nas diversas formas de imagens que representam tanto a noite quanto o dia nos grandes centros, e a partir dessas imagens alimenta suas meditações e reflexões. Durante o dia podia ser ver, as pessoas com destino certo, sua casa, ou serviço, mas também poderia haver aqueles que caminhavam junto com a multidão sem rumo.

Havia também os pequenos escreventes, e os escreventes profissionais, cada um com sua imagem pré-estabelecida, tanto nos gestos quanto nas vestimentas, os batedores de carteira por sua vez com suas largas mangas de camisa e os jogadores profissionais, todos habitam o mundo que Poe descreve, onde o olhar se dirige para o particular.

A multidão por outro lado também é vista como sinônimo de promiscuidade, diversidade, agressão, onde o fascínio dá lugar ao medo.

Ou seja, a multidão aglutinada passa a ser vista como contradição no sentido de que a mesma é a causa do “progresso” e da degradação do homem. Sendo assim Maria Stella agora se volta para o olhar do contraditório, que vê na multidão o reflexo da degradação humana.

Engels em 1840 em visita a Londres, se vê perdido diante desta contradição, pois em um mesmo dia ele se depara com o progresso industrial por um lado e do outro suas conseqüências nos bairros pobres e afastados dos grandes centros. Onde a condição básica de sobrevivência do ser humano, físico e mentalmente é trocado pela bem da civilização.

Sendo assim nos deparamos com a aglomeração humana como questão social, onde por sua vez o pobre é visto como causa e não conseqüências, neste sentido, idéias como a sanitarista ganha força dentro do cenário letrado da época. É interessante a questão que Maria Stella levanta em torno da real representatividade do pensamento sanitarista, que é limpar a cidade em prol do desenvolvimento. Dentro dessa mesma problemática, o pobre é enquadrado dentro de normas cridas por estes mecanismos do poder, logo a questão da eliminação do londrino é um processo que tem varias etapas antes do seu fim.

A justificativa que os órgãos competentes dão em relação à teoria da degradação urbana, é de redução de custos, ou seja, o pobre que não trabalha, tem que arcar com sua subsistência, logo a idéia do pobre rentável, acabando assim com a chamada caridade aos pobres.

Outro fator interessante levantado pela Historiadora Maria Stella se dá em relação a multidão ser reflexo de perigo para as autoridades e burguesia, onde o grande contingente de mendigos ser superior ao numero de policiais, nesse sentido cria-se a problemática em torno da multidão como ameaça a “ordem” logo se torna necessária a criação de mediadas para que as massas se organizem em prol do trabalho e das normas impostas as eles.

E importante se lembrar que o pobre é aquele que usa de suas mãos para trabalhar, que por sua vez é indispensável para o progresso e desenvolvimento, mas nem por isso é considerado parte da sociedade política. A visão do pobre como sendo limitada a força de trabalho é fortalecida com o fim do cartismo e dos movimentos operários, que por sua vez foram substituídos de certa forma pela religião.

Dentro deste contexto nos deparamos com a chegada das fabricas e de sua representatividade e conseqüências junto à multidão, onde o não enquadramento do homem a seus quadros era visto como fraqueza física e moral, sendo que a presença dessas fabrica muda a rotina dos trabalhadores.

Os bairros reservados aos trabalhadores se encontram em situações precárias, onde as condições básicas de saúde e alimentação eram inexistentes, um dos fatores que contribuíam para o aumento dessa realidade, era o grande crescimento da população desses bairros. Porém não podemos nos esquecer que está é uma realidade que foi construída e alimentada pela idéia de progresso, onde a população é vista como números dentro da produção em alta escala, nesse sentido o trabalho especializado dá lugar ao não especializado.

Nesse novo mundo industrial, onde a taxa de pobres cresce rapidamente, a população se torna flutuante no sentido de não terem estabilidade social e econômica, nasce na França à idéia do pobre como ameaça política, reflexo do imaginário da Revolução Francesa, por outro lado na Inglaterra o pobre é visto como questão de ordem moral. Nesse contexto o pauperismo de Leon Say, ganha força.

O pessimismo em relação ao desenvolvimento industrial se dá em relação à criação de uma nova doença social por ele denominada de pauperismo, que é o estado crônico de privação das coisas essenciais a vida, questionando assim a noção de progresso presente nas fabricas e maquinas que por sua vez deixam o homem de lado.

Michelet por sua vez adentra nas fabricas para nos apresentarmos o homem como cifra, no sentido do individuo existir como mão de obra é nada mais.

Dentro dessa nova perspectiva de progresso proporcionada pelo advento da fabrica, Maria Stella, se volta para o olhar da Burguesia em torno da multidão, que por sua vez é um olhar de medo. Logo fazendo analogias em torno do povo com o comunismo, para conter uma possível organização e tomada de poder por parte da multidão, se vê necessário à criação de normas representadas pela lei.

E interessante que a burguesia usa das leis e da repressão física e mental para adentrar ao mundo das multidões, e por outro lado escritores, pintores, reformadores sociais, mergulham neste mundo a partir de suas necessidades estéticas e morais.

Quando Maria Stella se volta para os textos da câmera do comercial, percebe as particularidades presentes na realidade Francesa para com a realidade Londrina, nesse sentido nos apresenta que a o desenvolvimento industrial na França é atrasado se comparado ao de Londres, outro fator é da burguesia se dirigir ao campo, e Paris permanecer como centro do comercial, logo a multidão nasce longe da burguesia.

Estão questão envolvendo a multidão como responsáveis às más condições de vida nos grandes centros, e dos bairros sendo o berço de novos “ladrões”, é um pensamento alimentado e divulgado no século XIX, nesse sentido o escritor Balzac analisa a questão da deteriorização humana como presente a todos os moradores de Paris.

Maria Stella ao analisar a pobreza presente na multidão, adentra na diversidade que é ser pobre nas cidades de Londres e Paris. Logo o homem pobre é enquadrado dentro de uma normatilização que se difere da do vagabundo.

Nesse sentido, a questão da multidão amotinada, ganha mais atenção por parte das “autoridades”, no âmbito da mesma ser vista como uma ameaça à ordem estabelecida pelo progresso. As chamadas Mob, que a principio era uma ação de trabalhadores espontânea, ganha agora um teor permanente, nesse sentido se cria a necessidade da extinção do tempo livre por parte dos “desocupados”.

Para isso, ganha força a idéia do trabalho como forma positiva de Adam Smith, onde o trabalho é gerador de toda riqueza, porém, mesmo estando dentro das normas do trabalho, o trabalhador é visto como alguém inferior à burguesia e ao poder. Por outro lado os “vagabundos” ainda contam como uma situação pior que a dos empregados, pois não trabalhando, estão indo contra a idéia de civilização. Para isso se vê a necessidade de se enquadrar estes homens, e coloca-los dentro da ordem social, ou até mesmo elimina-los em prol do progresso e desenvolvimento.

Outro autor que Maria Stella, analisa no sentido seu olhar junto à pobreza é Locke, que a partir de sua teoria explica a constituição da sociedade por partes desiguais, nesse sentido ele nos apresenta a idéia do trabalho como única propriedade do trabalhador, logo ele pode doá-la, vende-la, empresta-la, nesse sentido os pobres são vistos como parte necessária a sociedade, os chamados vadios também o são, no sentido de proporcionarem a burguesia o ideal da caridade.

Porém, o não uso da força de trabalho por parte do trabalhador para alimentar o desenvolvimento industrial e consequentemente suprir suas necessidades básicas, é visto por Locke como falta de disciplina. A solução proposta por ele, é a força, pois os assalariados e os vadios não pensam, longo não tem razão, a única forma de expressão que conhecem é a violência, nesse sentido, é necessário o uso da força para se impedir uma possível insurreição.

Logo a repressão é usada para enquadrar os vadios dentro da normatilização social, e os prêmios e castigos são usados para controlar é fazer crescer na classe trabalhadora a idéia de obediência. Ou seja, o pobre é necessário a essa sociedade, porém não faz parte como sujeito dela.

Se criando assim a idéia do trabalho positivo que alimenta o mercado, sendo assim o homem que corrompe as leis naturais do trabalho é visto como alguém fora do mercado, assim a sociedade passa a ser organizar em torno do trabalho coletivo. A necessidade de organizar a multidão entra em questão no sentido de organizar a sociedade em torno do trabalho coletivo.

Logo, o pobre é organizado pela “ordem” dentro e fora das fabricas, se dentro das fabricas a situação é de exploração e perigos, devido às condições de trabalho, fora a situação dos que “corrompem a ordem natural” é ainda pior.

Eles são enquadrados e colocados em “casas de trabalho’, que fortalecem a idéia do desempregado e vadio rentável, neste sentido a questão do trabalho em sua essência ganha corpo que é de “Tortura” [1].

Em John Stuart Mill, a idéia da pobreza não mais é moral e sim conseqüência da questão industrial, nesse sentido se vê necessário à entrada dos pobres na política, no sentido de que com o tempo os mesmo se tornaram racionais e aceitaram a idéia do mercado, ou seja se procurava a moralização da classe trabalhadora.

Na França mais que medo dos mendigos, o medo que se tinha era das Jornadas Revolucionarias, presentes ainda no inconsciente da população. Nesse sentido Maria Stella, adentra nas massas e em sua representatividade no século XIX em Paris, ou seja, a idéia a ainda presente dos bairros dos proletariados estarem prestes a trazer à tona a força revolucionaria, nesse sentido as “massas” agora passam a ser as bases da civilização nas palavras de Victor Hugo, por outro lado Marx vê a necessidade do século XIX de deixar que os mortos enterrem seus mortos fazendo assim com que a classe revolucionaria olhe para o presente não mais com os olhos voltados para o passado.

Ou seja, a “multidão” conquista seu lugar de direito que é fora das amarras do mercado, é nas ruas que elas se vêm organizada em prol de um objetivo coletivo, que não é o de Adam Smith do trabalho coletivo, e sim o da Comuna de Paris onde a emancipação da classe trabalhadora é o principal objetivo.

O livro de Maria Stella é de uma contribuição imensa para a historiografia, a mesma com poucas palavras consegue adentra em inúmeras lacunas presentes na História, e ao traze-lás à tona nos possibilita analisar o presente como algo que muita das vezes se assemelha ao século XIX, no sentido de analisarmos certos assuntos de fora, apartir de documentos e teorias que se distanciam da realidade.

Nesse sentido, o olhar em relação à multidão e suas particularidades por parte de figuras como Baudelaire considerado um maldito na republica das letras, ou Blake em sua nova cosmogonia, Lautréamont e sua busca pela essência perdida, ou até mesmo Rimbaud e a necessidade de se inventar o amor. O que todos têm em comum respeitando suas particularidades e seus respectivos espaços de tempo e espaço, é a questão de não servirem seu olhar ao mercado.

“Nem todos os artistas se transformaram em gênios, mas todos os artistas que forem realmente geniais poderão se desenvolver sem entraves, isto é, poderão trabalhar com independência, sem estarem presos as exigências do mercado capitalista” (Karl Marx).

BIBLIOGRAFIA

BRESCIANI, Maria Stella Martins. Londres e Paris no século XIX: O Espetáculo da Pobreza, Ed. Brasiliense, 1998.


[1] Opinião pessoal, não expressa diretamente na obra.

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Written by moravagine

setembro 29, 2009 às 11:39 am

Uma resposta

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  1. Obrigado,este email me ajudou muiiito no trabalho da faculdade!abraços

    cristina

    março 22, 2011 at 4:32 pm


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