A vida verdadeira de Domingos Xavier
Literatura Africana
Identidade e Cultura
Por: Rafael Tadeu Carneiro
Ao nos depararmos com a questão da literatura, estamos imediatamente adentrando em um campo complexo, pois a mesma é alimentada por questões sociais, culturais, econômicas, políticas e subjetivas.
Sendo assim ao analisarmos determinada obra literária estamos nos debruçando sobre fatores que vão além de rotulações estéticas, sendo assim, podemos afirmar que a literatura é uma das formas de se afirmar a cultura e a identidade de um povo, por outro lado a mesma também pode ser usada para negar e castrar outras.
Dentro deste âmbito de analise, percebemos ao analisar a obra de José Luandino Vieira (A vida Verdadeira de domingos Xavier), que a questão da identidade está presente de forma muito forte na obra do autor angolano, sendo assim, se faz necessário antes mesmo de adentrar nas especificidades da obra, uma maior clareza em torno do autor.
José Luandino Vieira é o pseudônimo literário de José Vieira Mateus da Graça, nasceu em 04 de maio de 1936, na Vila Nova de Ourém, em Portugal, aos três anos de idade se muda com a família para Angola.
Luandino no solo africano alimentará e lutará em prol da reafirmação da identidade angolana, para isso ele adentrará em questões que fazem parte da história, do cotidiano e do imaginário dos moradores de Luanda, sendo assim a permanência de Vieira junto aos musseques[1], será de grande importância para sua produção literária, porém a convivência do autor para com os bairros periféricos de Luanda se estende à questão literária, pois foi nos musseques que José Luandino Vieira se viu como angolano, e conseqüentemente, se viu no direito e na obrigação de lutar em prol da identidade de ser africano, de ser Angolano.
É importante salientar que a luta em prol da reafirmação da identidade africana buscada por José Vieira, vai além da questão literária, pois o mesmo em muita das vezes se viu envolvido em outras formas de resistência e organização em prol da libertação de Angola, onde foi preso em Luanda e enviado ao campo de concentração em Cabo Verde, caminhando dentro desta mesma problemática tentaremos nos debruçar em torno do romance de José Luandino Vieira, onde procuraremos dialogar com Vieira e Domingos Xavier, cruzando o caminho de ambos.
Os caminhos que Vieira percorre em (A vida verdadeira de Domingos Xavier), são vastos, no sentido de que o autor percorre as varias possibilidades existente dentro da realidade angolana, no sentido de reafirmar a identidade africana presente em Luanda, sendo assim, o mesmo acaba por adentrar em questões como nacionalismo angolano, tradição africana,, resistência, identidade, tos estes fatores dentro de um contexto social especifico.
Sendo assim quando iniciamos a leitura de seu romance, percebemos que se trata antes de qualquer coisa de uma obra literária que rompe com padrões pré-estabelecidos pela literatura ocidental, no sentido de Vieira adentrar em fatores que legitimam a tradição de um povo através de elementos do cotidiano de seus personagens.
Esta questão é de extrema importância para a literatura enquanto representante de uma identidade de um povo, pois como nos mostra Edward Said em (Orientalismo, o oriente como invenção do ocidente), a literatura também pode ser usada para distorcer e enfraquecer a cultura do outro, alimentando a idéia de se criar uma identidade a partir da negação da cultura do outro, logo, José Luandino Vieira nos leva, a perceber que as páginas de seus romances, são páginas de luta, de combate, de resistência em prol de um ideal, que é o da identidade angolana, a partir de seus elementos africanos, presentes em uma realidade que têm componentes sociais que são oriundos de fatores históricos, sociais, culturais e subjetivos.
Logo na primeira página nos deparamos com Miúdo Zito a falar para velho Patelo, sobre a chegada de um preso, fato este que preocupa e causa interesse não só ao velho Patelo, mas também a todos os moradores do Musseque, por onde a noticia se espalhou rapidamente.
“No musseque a notícia correu com depressa, miúdo Zito transmitindo a mães e filhos, vizinhas comentando de porta em porta. Ninguém lhe conhecia, o pobre era muito alto e magro, ninguém lembrava aquela cara lá em cima. Vavô Patelo recolheu todos os pormenores, sempre cachimbando, e saiu depois com miúdo Zito na mão, arrastando sua perna esquerda, a calça dançando, motivo de troça da miudagem.” [2]
A prisão deste homem alimentará todo o enredo do presente livro, onde sua identidade e o motivo pelo qual foi preso serão usados pelo autor para adentrar em elementos presente da ex-colonia portuguesa, que por sua vez terá grande importância nas questões levantadas pelo autor através de seus personagens.
“Coragem, companheiro, não fales nada, não sabem de nada, coragem. Timóteo”. Ah, como era bom saber um companheiro perto, como era bom sentir o calor da solidariedade! Domingos Xavier tinha a certeza de resistir, sentiu mais forte o dever de não trair os amigos que confiavam nele, não trair a sua terra “[3]
As andanças de Miúdo Zito e Velho Patelo, pelas ruas para levar a novidade para Xicó, servem de pano de fundo para percebemos mesmo que de forma sutil o cotidiano dos moradores de Musseque e da cidade baixa, onde os detalhes das ações acabam por fazer não só os personagens esquecerem por um momento o preso, mas também o leitor, caminhando neste âmbito, Vieira faz adentrar em seu livro novos personagens, porém todos eles envolvidos em torno da figura de Domingos Xavier (o preso), o interessante é que mesmo todos estando envolvidos de alguma maneira com Domingos, não deixam de carregar suas particularidades, e desta forma que Vieira adentra em questões que envolvem toda a realidade de Luanda.
“Maria reparando como assim o musseque estava cheio, casa com casa, muita gente vivendo na mesma cubata, meninos nus de grandes umbigos chupando ranho, brincando na areia, ou sentados, fixandos seus olhos grandes.”[4]
Realidade está não só no sentido de espaço e de tempo, mas também subjetivas e culturais Vieira não apenas relatam fatos e ações de personagens inseridos em um determinado contexto, o mesmo usa de seus personagens para alimentar e defender a idéia de identidade de um povo, neste sentido a resistência de Domingos Xavier, é a resistência de todo um povo, de toda uma cultura.
Em a vida verdadeira de Domingos Xavier, a presença do nacionalismo angolano, da presença colonial e da luta pela preservação de uma cultura, é trabalhada em torno da prisão de Xavier, logo, as entrelinhas do romance são de extrema importância para que possamos sentir a resistência não só política, mas também cultural de um povo.
“Mas era muito alto e a cabeça dele estava sempre direita. Não tinha medo não…” [5]
“ Mas, irmãos, minha boca não se abriu, meu coração ficou fechado com os segrdos do povo”[6]
A representatividade de Domingos para com os outros personagens é de uma sutileza impressionante, pois a maioria dos personagens não conhece a identidade do preso, porém ele é um irmão, logo, a solidariedade é vista como algo fundamental na luta contra o colonialismo, luta está que também é mostrada por Vieira de outras maneiras, como através de tradições, de formas de alimentação, do contato com a natureza, da tomada de consciência, todos estes elementos são apresentados na visão de personagens que compõem a vida verdadeira de Domingos Xavier.
“– Isso mesmo, mano! O dono da loja era amigo do gerente, tinha posto lá uma cantina. Tinha sopa, macarrão, tudo comida dos brancos, e mal feito. E então caro, não te digo! Nós, dos tractores e das vagonetas, não aceitamos. Continuamos cozinhar nosso funji, nosso pirão, comíamos nosso quitande, você sabe. Pois não te digo, mano Souza, não te digo.”[7]
Este trecho nos mostra que a partir de um ato cotidiano, o autor nos apresenta a resistência ao colonialismo europeu, pois os personagens afirmam sua identidade cultural preservando a sua cultura através da culinária, porém é importante lembrar que Vieira não via o uso da língua portuguesa como sinal de alienação, e sim um direito que o africano tinha, pois a mesma é herança da colonização, por outro lado o autor não deixa de criticar a imparcialidade dos jornais em relatar os acontecimentos, como no caso da forte chuva e suas conseqüências:
“Na manha seguinte, os jornais trouxeram grandes descrições da chuvada e fotografias mesmo dos estragos, mostrando ruas com buracos, arvores arrancadas, automóveis inutilizados, areia pedindo tractores. Do menino afogado na lagoa da Pameli ou da faísca que matou na criança refugiada em baixo da mulemba, ou das muitas cubatas que tinha caído nos musseques deixando seus moradores sem abrigo, ou sepultados em vida, nenhum jornal falou.”[8]
Logo em seguida o autor nos mostra a solidariedade e a força dos moradores dos musseques:
“ Apenas o povo desses musseques soube e lamentou e chorou. Mas, nos dias seguintes, amigos e conhecidos iam levantar essas casas, essas cubatas outra vez, iam trazer materiais para reconstruir, iam fazer empréstimos para enterrar os meninos mortos e continuariam teimosamente a viver.”[9]
Outra questão interessante levantada pelo autor através de seus personagens é a questão da importância das escolas e dos clubes para a reafirmação da identidade, pois as mesmas eram proibidas pelas autoridades coloniais, pois segundo as mesmas, o povo angolano devia assimilar novas formas culturais, logo a não aceitação desta assimilação e a luta para se preservar as tradições africanas, é colocada por Vieira da seguinte maneira:
“ Problemas do povo, então, ninguém sabia tão bem como ele. Com essas conversas de sábado à tarde ou domingo de farra no clube, Xico foi verificando que a vida não é só calça estreita, brilhantina avulso, camisa americana.”[10]
Outra questão levantada por Vieira é a racial, onde a mesma pode ser vista em várias passagens do livro:
“ O homem levantava e baixava os olhos, falava baixo, procurava não ser notado. Mas toda a gente virava a cabeça para trás e alguém insistia mesmo para o cobrador expulsar o homem do maximbombo”[11]
“… duas senhoras brancas concordaram, acrescentando que qualquer dia nenhuma pessoa decente podia andar nos maximbombos por causa o cheiro dos negros”[12]
Em outro trecho logo em seguida, mas ainda dentro da mesma ação, outro negro, reflete sobre o fato que acabou de ver, sentindo nele mesmo os olhares dos outros passageiros, a diferença é que o mesmo não abaixa a cabeça, mesmo que internamente ele resiste da mesma forma que Domingos Xavier resiste na prisão.
“ Porque justiça de policia é justiça de quem manda, ele e o operário iriam de certeza para a prisão. O recado de velho Patelo tinha de ser transmitido, seus desejos não contavam agora. Mas era pena! Seria bom partir as fuças ao cobrador. Para evitar mais confusões desceu duas paragens antes do seu destino, não sem ouvir ainda as senhoras a dizerem:
- Esse, aí na frente, ainda vai com ar de gozo, não sabem pô-lo no lugar dele? Os negros são lá atrás.”[13]
É dentro desta problemática que caminha o livro de José Luandino Vieira, onde a resistência cultural, política e subjetiva de um povo são apresentadas através de sua experiência para com os mesmo, nos remetendo a outro fator constante da tradição africana, que é o conhecimento através da experiência, logo Vieira acaba por fazer de sua literatura, uma literatura de raízes, onde seu objetivo é trazer à tona a identidade do povo angolano.
Quando vemos a resistência de Domingos Xavier na prisão, estamos também diante da resistência de todo um povo, de toda uma tradição, de toda uma forma de pensar e agir, que não pode ser soterrada por ninguém, a resistência de Domingos Xavier para com os seus torturadores, é a resistência de Luandino para com os colonizadores, é também a resistência de Maria para com a multidão e a má vontade dos guardas, é a resistência de Mussunda, é a experiência de Patelo, a solidariedade de Miguel, e expectativa em torno de Miúdo Zito, em relação ao futuro:
“Quando falamos de tradição em relação à história africana, referimo-nos à tradição oral, e nenhuma tentativa de penetrar a história e o espírito dos povos africanos terá validade a menos que se apóie nessa herança de conhecimentos de toda espécie, pacientemente transmitidos de boca a ouvido, de mestre a discípulo, ao longo dos séculos. Essa herança ainda não se perdeu e reside na memória da ultima geração de grandes depositários, de quem se pode dizer são a memória viva da áfrica.”[14]
Todas essas formas de resistência desembocam nas águas de Kuanza, e que nestas mesmas águas esteja presente, A vida verdadeira de Domingos Xavier.
“– Irmãos angolanos. Um irmão veio dizer mataram um nosso camarada. Se chamava Domingos Xavier e era tractorista. Nunca fez mal a ninguém, só queria o bem do seu povo, e da sua terra. Fiz parar esta farra só para dizer isto, não é para acabar, porque a nossa alegria é grande: nosso irmão se portou como homem, não falou os assuntos do seu povo, não se vendeu. Não vamos chorar mais a sua morte porque Domingos Antonio Xavier, você começa hoje a sua vida de verdade no coração do povo angolano…”[15]
BIBLIOGRAFIA
BA. A. Hampaté. A tradição viva. História geral da África, Ed. Ática. SP, Unesco, 1982.
SAID, Edward. Orientalismo: O oriente como invenção do ocidente, Ed. Companhia de Bolso, 2007.
VIEIRA, José Luandino. A vida verdadeira de Domingos Xavier, Ed. Autores Africanos.
[1] Musseques: bairros periféricos de Luanda.
[2] VIEIRA, José Luandino. A vida verdadeira de Domingos Xavier, pp. 11, Ed. Autores africanos.
[3] Idem, 45
[4] Idem, 54
[5] Idem. 17
[6] Idem, 46
[7] Idem. 23
[8] Idem, 63
[9] Idem, 63
[10] Idem. 36
[11] Idem. 39
[12] Idem, 39.
[13] Idem, 40
[14] A.Hampaté Ba. A tradição viva, em História geral da Áfeica, pp. 181, Ed. Ática, Unesco, 1982
[15] Idem, 94